I
Por que adquirimos coisas? Por necessidade? Mas o que se entende por necessidade?
As necessidades podem ter origens naturais ou culturais. Colocando o Homem em um suposto "estado de natureza", onde o que há nada mais é do que recursos naturais, e as atitudes são regidas estritamente por um instinto e por impulso de manutenção da vida, a busca (a necessidade) se resume a alimentação, abrigo (aquecimento, e poderia se falar até em segurança contra outros animais...). Entretanto, o mundo como conhecemos, independente de questões "evolucionistas" ou outras mais, é um mundo cultural; além das necessidades puramente naturais, existem outras atribuições de valores às coisas, pessoas, abstrações. A vida - e talvez uma concepção de vida seja uma questão chave para uma teoria da justiça - pode ser observada sob essas perspectivas. Cada Ser Humano possui um complexo de valores e necessidades abstratas, construídas ao longo da história e adquiridos com (con)vivência. Vida, então, deve-se referir tanto ao aspecto biológico quanto ao cultural (plano abstrato).
Os sobreviventes vivem um um estado de tensão entre esses dois níveis. As coisas ganham um novo significado em uma circunstância caótica. O nível natural parece se sobressair, mas o cultural ainda persiste porque houve vivência, interação; construiu-se toda uma ideia de necessidades que agora são questionadas se elas realmente deveriam ser encaradas assim. Porém a questão é circunstancial: um computador com Internet pode não ser ''necessário" nas condições deles (ou será que seria?) tanto quanto um galão de água ou um estoque significativo de alimentos.
Olhando de um ponto ou de outro tudo parece recair sobre "sobrevivência". No plano natural as necessidades são sempre sobre aquilo que serve à manutenção da vida, ainda que instintivamente. No plano cultural também, mas em níveis diferentes, é de se admitir. É impossível afirmar que Internet, celular, aparelhos eletrônicos outros são supérfluos quando para manter a vida para um trabalho que exija o uso desses instrumentos. Por outro lado, um indivíduo que não possua bens suficientes nem para manter a sua sobrevivência não "necessita" de um Ipad. O problema é: e se ele quiser um e fizer disso um objetivo?
É possível visualizar situações distintas: a) ingresso do indivíduo numa situação de violência: roubos, furtos, ou outras práticas que possibilitem a ele adquirir um instrumento desses. Tal visão é uma visão pessimista; admite-se com ela que nesse caso os valores de reconhecimento da esfera alheia e da estabilidade ética não são suficientes para impedir um comportamento agressivo. Outra situação seria a b) de estímulo ao exercício de uma atividade que, aos poucos, permitisse a acumulação de recursos de produção e de consumo os quais possibilitariam a futura aquisição de um Ipad. Uma terceira hipótese seria c) uma assistência do Estado. Soa absurda, mas é de se colocar aqui exatamente pelo seu caráter absurdo. Alguns filósofos libertários rejeitam a ideia de um Estado assistencialista. Mas que nível de assistencialismo se rejeita? Alguns afirmam que cada um deve ser responsável pelos seus gostos (ninguém poderia querer ser abastecido com champanha ou whisky e exigir isto do Estado por não ter condições de arcar com seu gosto "refinado"). O Estado deve sim dar condições de que cada um alcance a possibilidade de galgar seu caminho, superando as possíveis barreiras da sorte ou do azar. Alguém que nasceu numa família pobre não pode ser simplesmente abastecido em todas as suas necessidades, mas naquelas que garantam a sua entrada na "briga".
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