segunda-feira, 6 de maio de 2013

Vida, sobrevivência e necessidade (Parte I) o.O

I

Por que adquirimos coisas? Por necessidade? Mas o que se entende por necessidade?

As necessidades podem ter origens naturais ou culturais. Colocando o Homem em um suposto "estado de natureza", onde o que há nada mais é do que recursos naturais, e as atitudes são regidas estritamente por um instinto e por impulso de manutenção da vida, a busca (a necessidade) se resume a alimentação, abrigo (aquecimento, e poderia se falar até em segurança contra outros animais...). Entretanto, o mundo como conhecemos, independente de questões "evolucionistas" ou outras mais, é um mundo cultural; além das necessidades puramente naturais, existem outras atribuições de valores às coisas, pessoas, abstrações. A vida - e talvez uma concepção de vida  seja uma questão chave para uma teoria da justiça - pode ser observada sob essas perspectivas. Cada Ser Humano  possui um complexo de valores e necessidades abstratas, construídas ao longo da história e adquiridos com (con)vivência. Vida, então, deve-se referir tanto ao aspecto biológico quanto ao cultural (plano abstrato).

Os sobreviventes vivem um um estado de tensão entre esses dois níveis. As coisas ganham um novo significado em uma circunstância caótica. O nível natural parece se sobressair, mas o cultural ainda persiste porque houve vivência, interação; construiu-se toda uma ideia de necessidades que agora são questionadas se elas realmente deveriam ser encaradas assim. Porém a questão é circunstancial: um computador com Internet pode não ser ''necessário" nas condições deles (ou será que seria?) tanto quanto um galão de água ou um estoque significativo de alimentos. 

Olhando de um ponto ou de outro tudo parece recair sobre "sobrevivência". No plano natural as necessidades são sempre sobre aquilo que serve à manutenção da vida, ainda que instintivamente. No plano cultural também, mas em níveis diferentes, é de se admitir. É impossível afirmar que Internet, celular, aparelhos eletrônicos outros são supérfluos quando para manter  a vida para um trabalho que exija o uso desses instrumentos. Por outro lado, um indivíduo que não possua bens suficientes nem para manter a sua sobrevivência não "necessita" de um Ipad. O problema é: e se ele quiser um e fizer disso um objetivo? 

É possível visualizar situações distintas: a) ingresso do indivíduo numa situação de violência: roubos, furtos, ou outras práticas que possibilitem a ele adquirir um instrumento desses. Tal visão é uma visão pessimista; admite-se com ela que nesse caso os valores de reconhecimento da esfera alheia e da estabilidade ética não são suficientes para impedir um comportamento agressivo. Outra situação seria a b) de estímulo ao exercício de uma atividade que, aos poucos, permitisse a acumulação de recursos de produção e de consumo os quais possibilitariam a futura aquisição de um Ipad. Uma terceira hipótese seria c) uma assistência do Estado. Soa absurda, mas é de se colocar aqui exatamente pelo seu caráter absurdo. Alguns filósofos libertários rejeitam a ideia de um Estado assistencialista. Mas que nível de assistencialismo se rejeita? Alguns afirmam que cada um deve ser responsável pelos seus gostos (ninguém poderia querer ser abastecido com champanha ou whisky e exigir isto do Estado por não ter condições de arcar com seu gosto "refinado"). O Estado deve sim dar condições de que cada um alcance a possibilidade de galgar seu caminho, superando as possíveis barreiras da sorte ou do azar. Alguém que nasceu numa família pobre não pode ser simplesmente abastecido em todas as suas necessidades, mas naquelas que garantam a sua entrada na "briga".

(...)

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Verdade, não-verdade e política o.O

Até que ponto acreditar nas versões que se apresentam como justificativas para ataques, guerras, mortes, destruições?

Antes de ingressar no assunto que se pretende especificamente neste post, é preciso esclarecer que cada publicação aqui será baseada na série pós-apocalíptica - dá pra perceber pelo título do Blog! - The Walking Dead (desenvolvida por Frank Darabont). O programa reúne temas a partir dos quais se desenvolvem discussões muito bem aprofundadas sobre vários assuntos, sejam eles filosóficos, sociológicos, jurídicos, políticos, médicos, morais... enfim, sob o enfoque de qualquer perspectiva, científica ou não. Acho que os admiradores da série - como eu - e de uma boa discussão poderão aproveitar esse espaço para explorar cada possibilidade apresentada em diversos episódios da série.

O que é a verdade senão aquilo que está desvelado, aquilo que nos é mostrado. Seu oposto não é a falsidade, mas sim a não-verdade. A verdade é aquilo que se apresenta como tal. Não há muito tempo que essa concepção me foi revelada (em Hermenêutica Heterorreflexiva de Wálber Araújo Carneiro). A importância dessa afirmação para o que vem a se tratar aqui (nesta postagem inicial!) é a correlação daquilo que politicamente se nos apresenta como verdade e como justificativa para manobras, tomada de medidas políticas (ou geopolíticas, com queiram).

A temporada mais densa de TWD é, com segura certeza, a terceira, na qual se apresentam muito nitidamente duas figuras líderes: Rick e Phillips [ou o Governador]. Ambos conquistaram a confiança de cada um de seus grupos em meio ao caos. São líderes carismáticos, numa classificação próxima daquela que Max Weber sugeriu, onde a dominação ocorre pelo reconhecimento em determinada personalidade, na confiança em seu poder de direção e coordenação. 

Quem acompanha a série desde o início "conhece" Rick e percebe sua evolução, seu desenvolvimento e a frieza que ele adquiriu. Em sua liderança, aliás em ambas as lideranças e em cada comportamento em particular, é possível verificar-se um certo utilitarismo (assunto para outro post!), um procedimento de balanceamento de consequências que dirigem a tomada de certas medidas, muitas vezes drásticas, mas "necessárias". Rick, poder-se-ia dizer, possui um caráter mais humano que o governador, mas ambos carregam a responsabilidade de proteção de sobreviventes dispostos a seguir as suas orientações, e na hora de agir frente aos desafios e ameaças calculam com frieza e com valores que se constroem baseados no bem estar geral - ou no bem estar de cada um, a depender da situação!

Mas voltando à verdade, ao desvelamento. Nos episódios finais da terceira temporada, mais especificamente o ep. 13, ambos os líderes "mentem", ou "contam suas verdades", num modo mais eufemista de dizer. Só sabemos que é mentira porque, como espectadores, temos acesso aos dois discursos (isto é, os discursos efetivos e os alegóricos!) e sabemos dos reais objetivos de cada um. 

O Governador, após uma proposta nada tentadora, sugere a Rick que entregue um dos membros de seu grupo (Michonne) para que ele possa se vingar (pela perda de seu olho) e, segundo a versão dele, suspenderia o ataque à prisão (espaço seguro contra os  walkers) ocupada pelo grupo liderado por Rick  e  encerraria a tensão entre os dois grupos A verdadeira intenção dele era simplesmente "finalizar" com todos. Enquanto isso, para seus próprios governados, ele serve a ideologia do medo;  a verdade (desvelada para o grupo de Woodburry) é que o grupo Prision  é um grupo de terroristas que querem dominar e exterminar, quando o que realmente corresponde aos fatos é a vontade de Rick de que cada qual permaneça em seu lugar. 

Rick, por outro lado, mente - em certos termos - para seu grupo. Omite a "proposta do governador" e apresenta que o que ele quer mesmo é o extermínio de todos, sem piedade! Talvez seja perspicácia, mesmo porque é essa mesmo a pretensão. mas ainda assim é uma verdade, um desvelamento usado alegoricamente como ideologia do medo, instalando um espírito de tensão e defesa.

Disso tudo, e aqui não cabe aprofundar em temas densos - não há espaço para isso - só é possível refletir sobre as possibilidades de o mundo reproduzir a ficção(ou vice-versa)! As verdades apresentadas, os dados, as intenções dos agente na política mundial e outros espaços são realmente o que são? Até que ponto acreditar nas versões que se apresentam como justificativas para ataques, guerras, mortes, destruições?